Moniaive Michaelmas Bluegrass Festival

Era quase meia noite quando chegámos a Moniaive, depois de uma estafante viagem de 12 horas, cinco das quais a conduzir do lado errado da estrada. Quando saí de Lisboa ia confiante que naquela noite ia beber umas cervejas escocesas e cantar o fado à porta do pub, mas uma valente enxaqueca instalou-se-me nos cornos e obrigou-me a mudar de planos. Os meus irmãos de banda não quiseram saber do meu miserável estado, largaram-me no bed & breakfast e piraram-se para o buteco mais próximo.

Na manhã seguinte chovia, claro. Estamos na Escócia, acima do paralelo 55 em finais de setembro e esperamos o quê? Depois do cafezinho da praxe fomos ver o epicentro do festival: o Glencairn Memorial Institute, que é uma espécie de casa do povo onde se realizam as principais atividades culturais e desportivas da comunidade local. Uma simpática e acolhedora casinha que estaria repleta de gente durante aquele sábado chuvoso.

O Moniaive Michaelmas Bluegrass Festival é um evento de pequena dimensão que acontece no último fim de semana de setembro. A sua programação está distribuída por diversos locais e embora o palco principal seja na casa do povo, há workshops, jam sessions e concertos em escolas, bares e igrejas da vila. A organização é eficaz e descontraída, pois está a cargo de um pequeno e simpático grupo de entusiastas do bluegrass que fazem aquilo por amor à camisola.

Depois de uma almoçarada no GlenWhisk, repleta de iguarias e cervejas locais, chegou a hora da nossa matiné. Fomos para cima do palco com a barriga cheia tocar a meio tempo para uma sala meio cheia de gente meio atordoada pela bujarda do aquecimento central. Não foi mau, mas podia ter sido melhor. Contudo, a tarde foi de alegria. A seguir ao concerto tivemos de nos abrigar da chuva no Craigdarroch Pub onde fomos obrigados a mamar jolas até à hora do jantar, marcada para às cinco da tarde, imagine-se. Nós somos sem sombra de dúvida e até provas em contrário a melhor banda de bluegrass portuguesa, mas na Europa jogamos na distrital. No entanto, parecia que toda a gente nos conhecia e comentava em surdina a nossa presença. Percebemos imediatamente que era por sermos portugueses e que toda a gente queria ver a banda que vinha da terra do sol e do mar. Coisa nunca vista naquelas latitudes.

Por isso, quando chegou a hora de regressarmos ao palco para a nossa segunda e última atuação, deparamos-nos com uma sala à pinha de gente ansiosa por nos ouvir. Fomos logo surpreendidos com um sincero discurso de boas vindas em Português, por uma escocesa apaixonada pelo nosso país que falava do coração e nos fez sentir em casa. Tentámos estar à altura das expectativas daquela malta. Tocámos bluegrass o melhor que sabíamos, cantamos o fado e até os brindámos com um tema dos Proclaimers, que lhes caiu em cheio no goto. Não fomos tão aclamados como o Guterres, mas merecemos uma bela ovação, muitas palavras simpáticas e um “I hope we meet again”. O resto da noite foi passada, claro está, no pub a degustar cerveja escocesa e a tocar com este e aquele que entra na roda e dá um ar da sua graça, no banjo, no bandolim, na guitarra. Foi muito bom participar no Moniaive Michaelmas Bluegrass Festival. Provavelmente foi a primeira e única vez, pois os programadores não têm por hábito repetir bandas. Seja como for, vai para sempre ficar na nossa memória aquele sábado chuvoso e tão cheio de calor.

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