O Baixo Verde

Vi-o assim que chagámos ao sítio do festival, pois aquele verde vintage não deixa ninguém indiferente. Estava na esplanada a acompanhar uns jammers que se dedicavam às valsas e aos slows. Era de contraplacado com um ponto em mogno e umas cordas de plástico para slapar, três quartos e bastante maneirinho. Não pensei mais no assunto. Era hora de fazer o reconhecimento do local, cumprimentar os amigos e os organizadores do Bluegrass Beeg. Pouco depois fiquei a saber que seria com aquele baixo verde que eu iria tocar. Bolas, pensei. Que grande chaço que me saiu na rifa. Sempre que a banda viaja para fora de Portugal eu tenho de arranjar um instrumento emprestado para poder tocar e ultimamente não tenho tido grande sorte com a qualidade dos contrabaixos que me calham: na Escócia emprestaram-me um baixo da treta com a ação mais alta que a torre dos clérigos e em La Roche calha-me sempre um mono de contraplacado pesadão e sem som.

greenbass

No entanto, ao observá-lo mais de perto notei que o ponto em mogno já tinha sido desbastado uma série de vezes, sinal de que este baixo já tinha sido muito tocado e provavelmente levado muita slapada naquela tromba. A pintura era do best! A camada verde vintage que lhe puseram tinha sido dada a pincel para esconder os motivos rockabilly que ainda eram visíveis através da tinta. Quem o pintou não foi de modas, pegou na lata e na trincha e aqui vai alho. Mas pensando bem, esta intervenção estética à padeiro até deu ao instrumento um aspeto único e uma grande dose de personalidade. E mal toquei as primeiras notas percebi que afinal tinha muito mais para oferecer do que aquilo que aparentava. As tais cordas de plástico afinal eram de aço revestidas a seda o que lhe conferiam um som bastante volumoso e encorpado, tanto no pizzicato como no slap. A ação, a distancia entre as cordas e o ponto, estava perfeita. Se estiver muito baixa as cordas restolham no ponto, se estiver muito alta é preciso meter esteroides para aguentar horas a fio de arre-bimbò-malho.

Vê-se que o instrumento já tem alguns anos e a avaliar pelos ferimentos concluí-se que já percorreu um longo caminho e foi tocado por muita gente. Não deixa de ser um instrumento de fraca qualidade e de aspeto duvidoso, que não teria lugar numa orquestra ou num ensemble jazzístico mais sério, mas para aquele contexto adequava-se perfeitamente. A seguir ao ensaio fiz questão de congratular a dona do instrumento e de lhe dizer que tem um excelente contrabaixo, cheio de personalidade e com grande som. Escusado será dizer que nessa noite o concerto correu que nem ginjas, pelo menos aqui para mim que estava muito bem servido. Espero que os Stonebones voltem a tocar por estas bandas e que eu volte a encontrar este velho amigo.

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